terça-feira, 3 de julho de 2012

30 anos de Blade Runner


Estreou nos Estados Unidos em 25 de junho de 1982; no Brasil, não muito tempo depois, em 26 de julho. Assim nascia o Film Cult por excelência: Blade Runner, o Caçador de Androides (Blade Runner, 1982) de Ridley Scott.
harrison ford 30 anos de <i>Blade Runner</i>
Ficha: Direção de Ridley Scott. Roteiro de Hampton Fancher e David Peoples. Baseado no livro Do Androides Dream of Electric Sheep, de Phillip K. Dick. Fotografia de Jordan Cronenweth. Montagem de Terry Rowlings e Marsha Nakashima. Música de Vangelis. Direção de Arte de Lawrence G. Paull. Com Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer, Daryl Hannah, Edward James Olmos, Joanna Cassidy, Brion James, William Sanderson, Joe Turkel. Cor. 114 min na versão original e 117 min na versão do diretor.
Sinopse: Em 2019, em Los Angeles, um policial com licença para matar persegue um grupo de androides inteligentes que se rebelaram, os chamados replicantes.
Comentários: Fala-se muito hoje em dia na possibilidade de se fazer uma continuação de Blade Runner (o próprio Ford se mostrou interessado), ainda mais no entusiasmo do lançamento de Prometheus (mas agora que o filme caiu na bilheteria e não passou até agora de US$ 108 milhões, tenho minhas dúvidas).
O fato é que, segundo o Box Office Mojo, o filme só rendeu nos cinemas americanos, com várias tentativas de relançamento, US$ 32.868 milhões, e o orçamento já era U$S 28 milhões! Enfim, a mudança da inflação é tão grande que não tenho os cálculos em mãos. Mas, certamente, deve haver dúvidas da certeza de ser um filme que irá dar lucro. Até porque a nova geração já não o cultua como a atual.

blade runner ok 30 anos de <i>Blade Runner</i>
Blade Runner 
foi indicado apenas aos Oscars de Direção de Arte e Efeitos Visuais. Não ganhou nenhum. Este foi o terceiro filme de Sean Young (1959), que hoje virou piada de atriz decadente e meio louca, e também o terceiro de Daryl Hannah (1960). O filme as transformou em estrelas, por uns tempos. O holandês Rutger Hauer (1944) era o ator preferido do diretor Paul Verhoeven, antes desta sua primeira experiência no cinemaamericano

Ficou famoso por uns tempos, mas se perdeu em produções B e C (recentemente tem tentado um retorno). O diretor Ridley Scott, junto com o irmão Tony, já era dono de uma produtora de comerciais, RSA, que já realizou mais de 2000 filmes publicitários. Estreou no cinemaganhando o Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 1978 com Os Duelistas e estourou no filme seguinte, Alien, o Oitavo Passageiro, Oscar de Efeitos Especiais, em 1979, que o levou a continuar na ficção-científica com este filme.
Depois formou, sempre com o irmão, a Scott Free Productions, que além dos seus filmes, produziu Clay Pigeons, com Vince Vaughn; Where the Money is, com Paul Newman; a série Fome de Viver (The Hunger) para a TV a cabo; e RKO – 281, para HBO. Também são donos dos históricos estúdios Shepperton, na Inglaterra, e The Mill, um estúdio de CGI (efeitos especiais).
Concorreu ao Oscar em 2000 por Gladiador, começando, então, uma parceria com o ator Russell Crowe (que agora parece terminada). Em 2003, virou sir do Império Britânico. É pai do diretor Jake Scott (1965), que fez Corações Perdidos/Welcome to the Rileys, em 2010, com Kristen Stewart, e inúmeros music vídeos. Também de Jordan Scott (apesar do nome, é mulher, diretora de Cracks, episódio de Crianças Invisíveis), e tem ainda outro filho, de um segundo casamento, chamado Luke Scott (que foi diretor de ator, fez making ofs e episódio de série, mas parece estar sumido).
Ridley também é famoso por ter sido o criador da chamada “director’s Cut” (versão do diretor, ou seja, uma montagem conforme o diretor gosta e não o estúdio ou os produtores). Ele fez isso em Alien, Blade Runner e, ainda, em Gladiador).
Crítica: Dizer que Blade Runner é visualmente espetacular é redundante. Mesmo nesta altura de sua carreira, Scott era um mago da “contraluz”, e contou aqui com a ajuda dos efeitos especiais de Douglas Trumbull (aquele premiado de 2001, uma Odisseia no Espaço). Ele foi responsável pela concepção visual do filme e fez um trabalho inegavelmente brilhante.
blade runner androide 30 anos de <i>Blade Runner</i>
A Los Angeles do começo do século 21 é marcada por uma chuva perpétua, com a qual as maravilhas do progresso (naves voadoras, robôs) contrastam com o lixo e a miséria, sempre emoldurados por anúncios comerciais de firmas japonesas que, segundo o filme, já teriam controlado o mundo.
A maneira certa de ver Blade é como uma transposição dos policiais da década de 40, os chamados film-noir para o futuro, basta reparar nos figurinos (no penteado da heroína), na decoração dos ambientes (onde predominam as venezianas), na própria construção dramática do filme.
Como acontecia nos filmes dos detetives Sam Spade ou Phillip Marlowe, a história é narrada pelo herói, ou anti-herói, Deckard (Ford, na época mudando sua imagem de Indiana Jones), que é um Blade Runner,expressão que designa os encarregados de caçar e matar androides fugitivos).
Esses androides chamados replicantes são utilizados como trabalho escravo em regiões perigosas. São quase iguais aos humanos, com frequência escapam, como acontece agora com o grupo liderado por Batty (o holandês Rutger Hauer, numa impressionante criação). O filme foi um fracasso de bilheteria nos EUA ao evitar as cenas de ação e marcar como uma fita policial para intelectuais, com desenvolvimento lento, cenas escuras, e onde o clima é mais importante que o confronto.
Só  nos últimos dez minutos, o filme realmente se explica, assumindo uma postura existencial, fazendo indagações que transcendem o gênero. Os replicantes têm pouco tempo de vida, mas será que isso não acontece com todos nós, os chamados humanos?
Deckard poderá perder a mulher que ama, a replicante Rachael (a bela Sean Young) a qualquer momento, mas alguém pode afirmar o contrário de qualquer amor? Não seríamos, portanto, e de alguma forma, todosmeros replicantes?
Os quase 30 milhões de dólares de orçamento ficam comprovados no virtuosismo do filme que tem ideias fascinantes como o replicante Batty que, à maneira de Frankenstein, procura seu criador com ilações até  shakespereanas. Depois do fracasso inicial de bilheteria nos EUA, o filme acabou se tornando “o cult por excelência”, ou seja, uma fita que só é apreciada posteriormente.
Soube-se mais tarde da interferência dos  produtores na montagem do filme, acrescentando uma narrativa em off que esclarece detalhes do filme e lhe dando um final mais otimista (as cenas externas foram tiradas do arquivo, aproveitando imagens não utilizadas de O Iluminado).
Também foram editadas diferentes versões com maiores ou menores detalhes de violência. Finalmente, a Warner liberou a chamada “versão do diretor” sem a narrativa em off. E algumas mudanças menores, uma outra tomada de um unicórnio, e, em vez do final feliz, corta-se assim que se fecham as portas do elevador para a fuga. Sem happy-end ou um melhor clímax.
Particularmente, prefiro a versão original, até mesmo porque esse tipo de monólogo interior só aumentava a semelhança com o gênero film-noir. Não ficou resolvida a questão até hoje polêmica de que Deckard seria também um replicante (um pequeno detalhe não explicado no filme, é o unicórnio caído no chão deixado pelo policial).
Na história original, só replicantes sonhariam com unicórnios. Depoimentos contraditórios de Ford e do diretor Scott continuam a deixar a questão em suspenso. Mas ainda acho que a versão original, aquela que marcou para sempre uma geração de fãs, deveria também estar disponível
Trivia
Há uma enorme quantidade de histórias de bastidores . Tentei selecionar as mais curiosas. Dustin Hoffman teria sido a escolha primeira para fazer Deckard. Ficou interessado mas queria fazê-lo de uma maneira completamente diferente. Deborah Harry teria sido a escolha original para ser Pris.
Já no fim da gravação, houve um incidente conhecido como a Guerra da Camiseta. A maior parte da equipe não gostava de trabalhar no filme (a que chamava de Blood Runner) e com Scott, que consideravam frio e distante. Este comentou com a imprensa que preferia os ingleses, porque apenas obedeciam, e eles, de vingança, fizeram camisetas com dizeres contra ele. Depois a turma fiel a Ridley contra-atacou com outros dizeres (Xenophobia é uma droga!).
harrison ford 2 30 anos de <i>Blade Runner</i>
Embora o filme seja inspirado em Philip K. Dick's (Do Androids Dream of Electric Sheep), o título vem de um livro de Alan Nourse, The Bladerunner. William S. Burroughs chegou a escrever um roteiro baseado no livro de Nourse.
Para Burroughs um  blade runner seria  "uma pessoa  que vende instrumentos cirúrgicos de forma ilegal”). Philip K. Dick viu apenas os primeiros 20 minutos porque morreu em 2 de março de 1982. Mas gostou muito e chegou a afirmar que "eles conseguiram capturar meu mundo interior”, embora nem o roteirista nem Scott tenham lido o livro de Dick.
O edifício usado para a cena final é o The Bradbury Building, que fica em downtown Los Angeles e foi usado em vários outros filmes. Dias antes do começo da filmagem, a produtora Filmways Inc., que tinha prometido investir U$15 milhões se retirou do projeto e o colocaram em Um Tiro na Noite de Brian De Palma. Em dias, o produtor Michael Deeley conseguiu o dinheiro com a Tandem Pictures,  Ladd Company (pela Warner Bros.) e os de Hong Kong Sir Run Run Shaw ( Fox, United Artists e  Universal recusaram o projeto ).
Foram considerados nomes para o filme: 'Do Androids Dream of Electric Sheep?', 'Android', 'Mechanismo', 'Dangerous Days'. Ridley Scott decidiu que preferia outro nome, 'Gotham City', mas Bob Kane  não quis vender os direitos. Philip K. Dick queria Victoria Principal para o papel central. Somente três foram consideradas a sério: Sean Young, Nina Axelrod e  Barbara Hershey.
O apartamento de Deckard foi inspirado na casa de Frank Lloyd Wright que existe em Los Angeles. Houve o boato de que a narrativa original em off feita por Harrison Ford teria sido sabotada pelo ator. Mas numa entrevista ele nega, afirmando que tinha feito o melhor possível. Mas nunca achei que eles iriam usá-la. Simplesmente, foi uma má narração. Ridley aponta como suas influências a pintura de Edward Hopper 'Nighthawks', o quadrinho francês 'Métal hurlant', em especial o trabalho de Moebius e a história The Long Tomorrow. Moebius chegou a ser convidado a trabalhar no filme, mas recusou (e depois se arrependeu).
Batty faz uma paráfrase do poema, de William Blake, America — a Prophecy quando aparece no laboratório de Chew. A cobra que Joanna Cassidy usa em volta do pescoço pertencia a ela mesma e se chamava Darling.
Nega-se que o jogo de xadrez tenha sido inspirado num embate famoso de 1851 entre Adolf Anderssen e Lionel Kieseritzky. Ridley diz que é pura coincidência.
Ridley Scott e Michael Deeley chegaram a ser despedidos do filme quando ele ultrapassou o orçamento previsto e o projeto foi assumido pelos produtores-executivos Jerry Perenchio e Bud Yorkin, da Tandem Productions. Estes mantiveram o controle artístico do filme ainda que os tenham recontratado depois. Foram eles que resolveram colocar o voiceover e o final feliz quando nas previews o público achou o filme difícil de entender. Ridley Scott aceitava a voz off, mas filosofando sobre o tema.
Ridley Scott originalmente recusou o projeto porque iria fazer Duna eTristão e Isolda. Michael Apted, Bruce Beresford e Adrian Lyne também recusaram. Eventualmente, Robert Mulligan foi contratado, mas largou depois de três meses. Ridley só teria aceitado para se distrair da morte de um irmão.
O termo replicantes não é usado no livro, no qual são chamados de Androides ou  Andies. A ideia do nome foi de Risa, filha de David Webb Peoples, que estudava bioquímica. Durante muitos anos,  Harrison Ford recusou falar sobre o filme, mas já fez as pazes com o filme. Diz que o que mais recorda são as filmagens muito difíceis, as discussões com o diretor e ter sido forçado a gravar o voiceover escrito por Roland Kibbee.
Quando Pris (Daryl Hannah) encontra Sebastian (William Sanderson), ela foge e escorrega num  carro, quebrando o vidro com o tornozelo. Isso foi um erro de verdade, porque ela deslizou no chão escorregadio. E se machucou de verdade. A escama de cobra vista no microscópio era na verdade maconha!
Há várias lendas sobre o filme, uma delas afirma que há maldição de Blade Runner: todas as companhias que tiveram seu logo faliram. Ou quase. Isso aconteceu com a RCA, Atari,  Cuisinart, The Bell System , Pan Am . Mas a  Coca-Cola Company continua a ir muito bem. A ideia de Roy soltar uma pomba foi de Rutger Hauer. Mas a água da chuva era tão forte que ela não conseguiu voar.
Em  2000,  Ridley  afirmou que  Deckard era realmente um replicante. Harrison Ford  não concordou "Concordamos definitivamente que ele não era”. Na autobiografia de Rutger Hauer ele não gosta da ideia porque reduziria tudo a uma briga entre Deckard e Batty  e não um confronto simbólico entre "homem  vs. máquina" para uma luta entre dois replicantes.
Uma mulher ginasta foi contratada para ser dublê de Daryl Hannah  nas cenas de luta, mas ficou exausta e tiveram na última hora de substituí-la por um homem, encontrado também de última hora. Originalmente,  Roy Batty (Rutger Hauer) teria um monólogo antes de morrer, mas o ator achou que não ajudava a cena e usou apenas as partes que gostava e acrescentou ele mesmo a frase final: "todos aqueles momentos estarão perdidos como lágrimas na chuva. Hora de morrer".
Na versão do diretor, apenas uma tomada a mais foi feita corrigindo a cena em que se via obviamente a dublê de Zhora (Joanna Cassidy) atravessando o vidro. Conseguiram agora inserir o rosto da atriz que 25 anos depois conseguiu usar a mesma roupa e imitar tudo com facilidade.
Alguns roteiros com continuação foram publicados e todo o elenco se mostrou interessado em fazer a sequência. As notícias afirmam que as negociações prosseguem com os donos dos direitos.






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