
Desde que o filme Pulp Fiction, de 1994, se tornou a primeira produção independente a arrecadar mais de US$ 100 milhões em bilheterias, o diretor Quentin Tarantino conseguiu consolidar a imagem do fanático por cinema que deixou o balcão da locadora para se tornar um dos cineastas mais queridos e cultuados de Hollywood. Bastardos inglórios, lançado em 2009, foi indicado a nove Oscars, incluindo Melhor filme, e arrecadou mais de US$ 320 milhões de dólares. Seu novo longa, Django livre, que estreia nesta sexta-feira (18) no Brasil, pode se tornar um sucesso ainda maior. Desde dezembro, já arrecadou mais que Bastardos nos Estados Unidos.
Django livre conta a história de Django (Jamie Foxx), um escravo liberto por Dr. King Schultz (Cristoph Waltz), um caçador de recompensas disfarçado de dentista. Os dois correm os Estados Unidos matando bandidos procurados pela justiça, até que Schultz decide ajudar Django a encontrar sua mulher, Broomhilda von Shaft (Kerry Washington), escrava de Calvin J. Candie (Leonardo DiCaprio) na enorme fazenda Candyland. O filme é baseado em vingança, um dos temas preferidos de Tarantino, e traz uma série de reviravoltas.
Inspirado pelos filmes de faroeste italianos da década de 1970, conhecidos como Western spaghetti, Tarantino fez uma homenagem a seus diretores preferidos. Pegou o nome do protagonista de um influente filme do cineasta Sergio Corbucci (Django, de 1966), e tomou uma série de liberdades históricas que favorecem a trama, algo que fez também emBastardos inglórios (confira a lista de influências do diretor no quadro abaixo). Boa parte da tensão do filme se desenvolve graças ao conceito adaptado por Tarantino de lutas de Mandingos, um tipo de duelo entre negros que seria promovido para divertir os donos das fazendas. Embora não exista nenhum documento oficial comprovando que essas lutas aconteciam de verdade, o diretor se baseou em filmes cults da década de 1970 e narrativas em livros de ficção para construir várias cenas importantes.
A tradicional violência presente nos filmes do diretor aparece em Djando livre, mas dessa vez com um motivo "nobre": mostrar aos espectadores a crueldade da escravidão. Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, Tarantino afirmou que "quando você começa a pesquisar a escravidão, a pesquisa deixa de ser algo intelectual. Você sente aquela falta de humanidade em seus ossos. Você fica irritado. Se você acha que o filme é violento, precisa saber que coisas muito piores aconteceram naquele tempo".
Famoso também pela seleção cuidadosa da trilha sonora, Tarantino usou vinis originais de sua coleção em Django livre. E, pela primeira vez, pediu para que artistas escrevessem músicas exclusivas. O rapper Rick Ross escreveu "100 black coffins" e o lendário compositor Ennio Morriconne, famoso pelas trilhas de clássicos de Sérgio Leone, também colaborou com um tema original. Até o cantor Frank Ocean escreveu uma balada romântica, que acabou sendo descartada por Tarantino.
O filme foi indicado a cinco Oscars e ganhou dois Globos de Ouro: melhor roteiro para Quentin Tarantino e melhor ator coadjuvante para Cristoph Waltz. Os críticos especializados em cinema elogiaram muito o roteiro original, as atuações (em especial a de Waltz) e o ritmo do filme. MasDjango livre não foi uma unanimidade. O uso exagerado da palavra "nigger" provocou revolta em críticos e cineastas. Spike Lee disse que não veria o filme, porque o considerava "desrespeitoso": "A escravidão não foi um filme de faroeste, foi um holocausto".
Nenhum comentário:
Postar um comentário