terça-feira, 1 de setembro de 2009

II GUERRA MUNDIAL, O MAIOR CONFLITO DA HISTÓRIA "FAZ 70 ANOS"

Alemanha de Hitler atropela acordos, invade a Polônia e derruba Varsóvia - Na rabeira do ataque tedesco, URSS abocanha uma parte do território polaco - França e Grã-Bretanha prometem retaliação: a refrega está armada
Foto: museu Yad Vashem
A invasão: soldados nazistas arrancam cancelas na fronteira da Polônia e iniciam a guerra

á quanto tempo as armas estão cantando no front europeu? Para alguns, desde o início da Grande Guerra - que jamais teria terminado, apesar do armistício de 1918. Para outros, uma nova batalha começara em 1936, com o embate entre fascistas e socialistas na Espanha. Já os mais crédulos preferiam ver a paz como soberana no Velho Mundo. Mas o líder alemão Adolf Hitler é homem de certezas, não de dúvidas. Para eliminar qualquer conjectura, resolveu mostrar para todo o planeta que estava começando uma nova guerra - a sua guerra, a guerra do Reich, a guerra da Grande Alemanha. E assim, às 4h45 da manhã de 1º de setembro de 1939, ordenou que seu exército cobrasse com sangue polonês os territórios tirados da Alemanha pelo Tratado de Versalhes. Assim foi dito, assim foi feito.

As poderosas guarnições do exército germânico fizeram das defesas polonesas frágeis bibelôs, que se espatifaram completamente em menos de um mês de combate. Varsóvia caiu no último dia 27, e a fortaleza de Modlin, último bastião da resistência, no dia seguinte. A derrocada da Polônia foi sacramentada com a invasão do Exército Vermelho na porção ocidental do território beligerante, em 17 de setembro - a União Soviética, considerando que a República Polonesa já deixara de existir, entrou na guerra para ocupar territórios que reconhecia como zonas de sua influência. Signatária de um pacto de não-agressão com os alemães, ela também o fez sem grandes esforços. Em trinta dias, os ataques das duas potências contabilizaram à Polônia cerca de 70.000 mortos, entre civis e militares, e 130.000 feridos. A Europa, em sobressalto, sabe que é apenas o começo.

O apaziguamento, afinal, virou coisa do passado - recente, mas ainda assim passado. França e Grã-Bretanha não poderão repetir a ingênua e desastrosa política de conciliação que permitiu à Alemanha nazista ocupar e anexar a região do Reno, em 1936, o torrão dos Sudetos, em 1938, e, em março deste ano, rasgando o acordo assinado em Munique, a Tchecoslováquia - fato que não deixou dúvidas sobre as intenções germânicas. Assim, cumprindo o pacto de auxílio firmado em março com Romênia, Grécia e Polônia, as duas potências ocidentais declararam oficialmente guerra à Alemanha em 3 de setembro, dois dias depois do ataque aos poloneses. Aliás, não foram só elas: até o fechamento desta edição, Austrália, Índia, Nova Zelândia, África do Sul e Canadá também já haviam ingressado oficialmente na luta contra o Reich.

A guerra promete ser duradoura. A Alemanha não parece estar disposta a abandonar sua política externa expansionista, mesmo tendo atingido todos os objetivos iniciais da campanha da Polônia: retomar as terras perdidas em Versalhes, destruir a república arqui-rival e ainda conquistar os chamados "espaços vitais" (Lebensraum, no original alemão) propícios à segurança e expansão do povo germânico. Para estender suas tenazes sobre as disputadas regiões do Corredor Polonês, da Alta Silésia e de Danzig, Hitler provocou a ira de britânicos e franceses, já de cara fechada desde a assinatura do pacto entre nazistas e soviéticos. Mas o Führer dá de ombros, sem demonstrar sinal algum de arrependimento, e promete usar todos os meios necessários para atropelar os inimigos: "Quando se começa uma guerra, já não é o direito que conta, e sim a vitória".
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Jogo de cena - A vitoriosa manobra alemã na Polônia, batizada de Fall Weiss ("Plano Branco"), principiou-se em 25 de agosto, com uma espécie de teatrinho da autoridade máxima nazista. Naquele dia, às 15h25, Adolf Hitler telefonou a um de seus mais leais oficiais, Gerd Von Rundstedt, comandante do Grupo de Exércitos Sul, que se encontrava acampado às margens do Neisse, e ordenou o início dos ataques para 4h30 da manhã seguinte. Von Rundstedt já havia despachado três batalhões para a pugna quando recebeu, por volta das 20h30 do mesmo 25 de agosto, uma nova mensagem do Führer anulando a ordem de ataque. O marechal de campo teve de correr e segurar seus homens pela gola do uniforme. A justificativa de Hitler arranhava uma surpreendente saída pacífica para o confilto: "Quero evitar a intervenção dos ingleses".

A frase foi a senha para o início de uma semana de negociações. No final de agosto, a diplomacia ainda parecia ter chances de vingar. Hitler admitira receber um plenipotenciário polonês, e a idéia lançada pelo líder italiano Benito Mussolini - fazer uma conferência internacional para discutir casos europeus em litígio - começava a ser levada em consideração. A boa-vontade do lado germânico, porém, não passava de fachada. O líder tedesco não tinha a menor intenção de usar o diálogo para resolver a pendenga, como ficaria provado no fatídico crepúsculo do mês.

Na tarde de 31 de agosto, sob encomenda do Führer, o poderoso general Reinhard Heydrich fabricou um incidente talhado a servir como justificativa à iminente invasão da Polônia. Comandados pelo major da SS Alfred Naujocks, oito soldados alemães vestiram-se com trajes do exército polonês e invadiram a estação de rádio da cidade alemã de Gleiwitz, distante 1,6 quilômetro da fronteira polaca. Após render a equipe da emissora, o grupo anunciou ao microfone, em alto e bom polonês, que chegara a hora de a Polônia atacar a Alemanha. Antes de deixar o local, as falsas tropas polonesas ainda deixaram uma "prova" forjada das supostas hostilidades contra contra civis germânicos, executando um refém - na verdade, um prisioneiro de campo de concentração arrastadi até à rádio especificamente para esse fim. O exército alemão ainda levou o cadáver até os correspondentes internacionais, exibindo-o como evidência inconteste do que anunciavam como cruel ataque polaco.
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Corredor Polonês - Depois desse último jogo de cena, a tão desejada batalha de Hitler foi finalmente levada a cabo. Às 4h45 de 1º de setembro, apenas alguns minutos depois que os aviões Stukas da Luftwaffe (Força Aérea) começaram a atacar os primeiros campos de pouso poloneses, o couraçado alemão Schleswig-Holstein, navio-escola da Kriegsmarine (Marinha), em visita amistosa ao porto de Danzig, abriu fogo contra a Westerplatte, uma faixa de aproximadamente 1,6 quilômetro onde a Polônia mantinha um armazém naval e um depósito de munições. Os poloneses organizaram heróica resistência, mas acabaram se rendendo uma semana depois.

A essas alturas, o Exército alemão já alcançara êxitos estrondosos em diversos pontos do território inimigo, graças a uma nova e revolucionária técnica de guerra - a Blitzkrieg, ou "guerra relâmpago". Ataques aéreos múltiplos eram executados de forma simultânea, permitindo que as guarnições de tanques em terra avançassem rapidamente. No norte, o Terceiro e o Quarto Exército da Alemanha uniram-se, subjugando o Corredor Polonês já no dia 3 e fazendo com que o Exército de Pomorze fosse completamente dizimado. Na Silésia, o Grupo de Exércitos Sul avançou rapidamente sobre os Exércitos de Lodz e da Cracóvia.

Em 5 de setembro, a posição da Polônia era crítica, a despeito das declarações de guerra da França e da Grã-Bretanha - que, a bem da verdade, tiveram pouco tempo hábil para se preparar e ajudar a defender a terra atacada. Ao invés de bombas, os aviões da Royal Air Force (RAF) britânica preferiram lançar dezenas de milhões de folhetos em terras alemãs, culpando Hitler pela guerra e esperando que a população teutônica insistisse na paz. Evidentemente, esses apelos não eram refresco ou esperança alguma aos homens do marechal Smigly-Rydz, comandante do Exército Polonês, no combate aos invasores.

E não era para menos. Como se não bastasse a superioridade gritante do equipamento das forças germânicas, Hitler comprometeu em peso seu exército nessa campanha, arriscando-se a deixar desnudas as defesas no quinhão ocidental da Alemanha. Tudo para garantir uma vitória inconteste, afirmativa do poderio militar do Reich. Nesse contexto, a invasão soviética no leste polonês foi apenas a pá de cal nas esperanças da defesa. Mesmo antes de terminada a luta, os conquistadores já repartiam o espólio: uma divisão militar temporária estendeu a fronteira vermelha até o rio Vístula. No fim do mês, com a batalha definida, alemães es soviéticos teriam firmado um acordo para fixar as linhas russas mais para o leste, o restante ficando sob controle tedesco.
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'Supremacia ariana' - A anexação desse território foi mais um passo para a construção do Império da Grande Alemanha, talvez a grande obsessão da vida de Adolf Hitler. Mas não se pode deixar de mencionar que a mais recente empreitada militar germânica também veio a atender uma segunda - e mais nefasta - idéia fixa do Führer: a purificação racial e a "limpeza" da nação. Nunca é demais lembrar que um dos primeiros decretos de Hitler como chanceler, em 1933, foi a suspensão dos direitos políticos dos judeus. No início deste ano, em discurso no Reichstag, o parlamento alemão, Hitler declarou com todas as letras que a raça judaica seria eliminada da Europa num mundo dominado pela ordem nazista.

E o que se viu na Polônia foi uma nova demonstração de tais intenções. O "Plano Branco" incluiu o uso de sete Esquadrões de Ação Especial, os Einsatzgruppen, unidades móveis de extermínio que haviam estreado de forma tímida na Batalha da Áustria, em março de 1938. Sua missão, conforme as palavras do comandante Theodor Eicke, é auto-explicativa: "encarcerar ou aniquilar" todo e qualquer inimigo do nazismo. Além de executar arbitrariamente centenas de judeus, os temíveis Einsatzgruppen mostraram serviço ao assassinar membros da intelligentsia polaca, além de padres e aristocratas. Os judeus poupados da barbárie vêm sendo expulsos da área anexada pelo Reich. Para que as autoridades alemãs tenham controle total sobre seus atos, esse grupo será forçado a viver em guetos - o primeiro está sendo instalado em Piotrkow, e deve ser posto em funcionamento ainda em outubro.
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O mundo em alerta - Enquanto Canadá, Austrália, Nova Zelândia e demais países do Império Britânico apressavam-se em tomar partido de Londres, outras forças do mundo ocidental preferiam optar pela neutralidade. Até mesmo a Itália, que cultiva uma rivalidade histórica com a França, preferiu não se juntar à aliada Alemanha no front. Provavelmente pesaram na decisão do ditador Benito Mussolini os protestos dos radicais fascistas anti-bolcheviques, que foram às ruas para condenar o pacto entre Hitler e Stalin, e a indignação generalizada dos italianos com o massacre promovido pelos nazistas na Polônia, país católico como a Velha Bota.

Mantendo a postura isolacionista adotada após a traumática adesão à Grande Guerra, na qual cerca de 50.000 de seus soldados tiveram as vidas ceifadas em combate, também os Estados Unidos da América desfraldaram a bandeira branca. Para marcar essa posição, o presidente Franklin Delano Roosevelt convocou na última semana do mês a Conferência do Panamá, com a participação de mais de 20 repúblicas do continente. Como resultado dos debates, foi divulgada uma declaração que confirmou a neutralidade dos países representados e ainda baniu a entrada de submarinos beligerantes em seus portos, exigiu o fim das atividades militares subversivas em seus territórios e estabeleceu a criação de uma zona marítima de segurança de 480 quilômetros ao redor do Continente - com exceção do litoral do Canadá e das colônias de países europeus.

A opinião pública americana demonstrou apoiar a decisão de FDR. Apesar do generalizado sentimento anti-nazista, a população acredita que Grã-Bretanha e França serão capazes de conter os avanços de Hitler na Europa. Neville Chamberlain, primeiro-ministro britânico, também espera ser esse o desfecho do embate. Desta vez Adolf Hitler terá sérias dificuldades para repetir Munique e fazer Chamberlain - e, por tabela, a Grã-Bretanha - de gato e sapato outra vez. Atendendo aos apelos do povo inglês, o primeiro-ministro convocou ninguém menos que o experiente e sagaz Winston Churchill para o Almirantado. Como todos sabem da queda do lorde por uma boa guerrinha, a Europa pode se preparar: vai ser briga de cachorro grande.


Lance arrojado: Stalin sorri e Molotov (sentado) assina pacto com Ribbentrop (atrás dele)

a gélida União Soviética, o xadrez é uma paixão nacional - o outro passatempo do povo é enganar o frio entornando doses oceânicas de vodca. Os russos monopolizam o jogo e detêm o título mundial com Alexander Alekhine, que conquistou a coroa há 12 anos e só deixou o trono entre 1935 e 1937 (devoto fervoroso da branquinha moscovita, ele jogou bêbado um desafio contra o holandês Max Euwe, para quem perdeu temporariamente a coroa). Czares do tabuleiro, os soviéticos gostam de usar o talento de enxadristas em quase tudo o que fazem. No último dia 17, quando forças soviéticas abocanharam um pedaço da Polônia sem qualquer objeção dos invasores nazistas, ficou claro que Josef Stalin tem o mesmo costume. Depois de confundir e atordoar o mundo durante um mês, o marechal vermelho enfim mostrou qual fora sua jogada ao firmar um surpreendente pacto com a Alemanha.

Assinado no fim de agosto, o tratado parecia sinalizar uma improvável aproximação entre Stalin e Adolf Hitler - afinal, o texto proíbe agressões mútuas, veta alianças com inimigos dos signatários e determina que possíveis discordâncias sejam resolvidas com uma "amigável troca de opiniões". Como Stalin e Hitler estão longe de ser velhos camaradas, ninguém entendeu nada. Nem os comunistas que defendem seu ideário político fora da URSS souberam explicar o pacto com o nazismo. Desde então, porém, as peças do quebra-cabeça passaram a se encaixar. De acordo com relatos surgidos nas últimas semanas, soviéticos e alemães não querem namoro nem casamento. A estratégia seria outra: ao mergulhar a Europa na guerra, os dois lados partilhariam as conquistas entre eles, criando duas grandes esferas de influência, uma alemã, outra soviética. A Polônia, rasgada em duas na altura do rio Bug, seria apenas o primeiro prêmio a ser dividido.

Oficialmente, nem alemães nem soviéticos admitem a manobra. Diplomatas ocidentais dizem, entretanto, que o suposto acordo pode ter sido sacramentado num anexo secreto ao tratado de não-agressão - depois da Polônia viriam Finlândia, Letônia, Lituânia e Estônia. Mas não confunda-se o acordo com uma aliança política ou militar: é cada um por si e todos contra a democracia. Na avaliação de analistas estrangeiros, Stalin e Hitler só querem evitar o mano-a-mano por algum tempo. Mentores de ideologias rivais e igualmente postulantes ao domínio da Europa, dificilmente terão outra saída que não lutar entre si. Resta saber quem rasgará o acordo primeiro. Stalin avisa que não será ele: ao receber o ministro alemão das Relações Exteriores, Joachin von Ribbentrop, para a assinatura do pacto, o marechal brindou ao visitante e ofereceu sua "palavra de honra" de que não trairá o inusitado parceiro.
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Ministro judeu - Para Stalin, o jogo começara ainda no ano passado, quando ele se convenceu de que a grande meta de Hitler era conquistar a URSS. Com sua máquina militar em frangalhos - os principais comandantes foram alvos de expurgos -, o Kremlin precisava, mais do que nunca, de uma tática perspicaz, ainda que cautelosa. O primeiro peão foi movido em maio, quando o líder soviético tirou Maxim Litvinov do posto de ministro das Relações Exteriores. Litvinov queria armar uma aliança anti-nazismo, tinha fama de ser pró-Ocidente e, para completar, era judeu. Com ele chefiando a diplomacia, não havia conversa com os alemães. No seu lugar entrou Vyacheslav Molotov, velho camarada de Stalin na revolução bolchevique. Mexendo novamente nas peças, o marechal ensaiou um pacto com Grã-Bretanha e França. Ao especular a aproximação com as forças democráticas, Stalin pretendia obter uma garantia de ajuda em caso de ataque alemão.

Desconfiados, britânicos e franceses não fizeram esforço algum para fechar acordo com os soviéticos. As forças ocidentais só queriam preservar o status quo territorial e apaziguar o conflito com Hitler. Tanto que, enquanto Ribbentrop corria a Moscou para firmar pessoalmente o pacto com Molotov, os britânicos mandavam apenas um diplomata de segundo escalão, sem poder de decisão, numa lenta viagem de navio à URSS. No meio do caminho, deu meia-volta: o pacto nazi-soviético já estava assinado. Stalin desistira de dialogar com os britânicos - que, segundo ele, sonhavam com uma guerra entre alemães e soviéticos, conflito que poderia eliminar o nazismo e o comunismo numa tacada só, com destruição mútua e sem envolvimento externo. Stalin, contudo, não cairia nessa cilada.

Assinar um pacto com os nazistas foi o lance mais arrojado e imprevisível que o chefão do Kremlin poderia inventar. Por um lado, Stalin se arrisca a atrair a fúria dos inimigos de Hitler, além de macular a imagem da URSS e deixar transparecer sua fragilidade militar. Por outro, anexa metade da Polônia e ganha tempo para lutar uma provável guerra contra os alemães (os soviéticos calculam precisar de três anos para se preparar para o duelo). De qualquer forma, acredita-se que Stalin deseje mesmo ver o circo pegar fogo. Fontes soviéticas contam que, na verdade, o Kremlin quer estimular a realização de uma nova grande guerra, e não impedi-la. Esse confronto, descrito pelos soviéticos como choque de países imperialistas e uma conseqüência inevitável do regime capitalista, seria uma chance de espalhar a revolução e propagar o comunismo. Os próximos meses dirão se Stalin abriu caminho para o xeque-mate - ou se deixou o bispo e a rainha sem defesa alguma diante dos inimigos.

Novo conflito volta a mobilizar Europa 25 anos depois da Grande Guerra - Mesmo sem ataques, a rotina dos países beligerantes muda de súbito - Evacuações, racionamentos e blecautes tornam-se parte do cotidiano do Velho Mundo
Foto: museu Yad Vashem
À espera das bombas: diante da catedral londrina de Saint Paul, soldado vigia o céu inglês

m 1914, os países da Europa começavam a se engalfinhar no conflito que depois ficaria conhecido como a Grande Guerra. Durante quatro anos, o cotidiano de milhões de pessoas foi marcado pela tensão, pelo medo e pelos sacrifícios compulsórios em apoio àquela que seria "a guerra para acabar com todas as guerras". Tais esforços, porém, de nada adiantaram. Passados 25 anos, uma nova geração de europeus volta a conviver com o terror daquela contenda - agora elevado à enésima potência pela ameaça real do bombardeio aéreo.

Apesar de nenhuma ação militar ter sido empreendida fora da Polônia invadida, a população da maioria dos países em guerra já tem suas vidas ditadas e atrapalhadas pela guerra. Na Grã-Bretanha, só nos primeiros dias do mês, mais de 1.500.000 pessoas foram evacuadas para áreas consideradas livres de ataques aéreos, sendo 827.000 estudantes acompanhados pelos professores e 535.000 mulheres gestantes ou com crianças em idade pré-escolar. Foram organizados centros de distribuição em cidades como Oxford, Cambridge, Reading e Gloucester.
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Cartões de racionamento - Londres, em especial, vive um êxodo generalizado: diversas empresas, instituições e repartições públicas também estão deixando a cidade. Boa parte da estrutura da BBC foi deslocada para o oeste; seções do Almirantado foram transferidas para Bath, enquanto parte do Departamento de Guerra foi deslocado para Droitwich. Quem fica, sofre com a falta de serviços públicos: não há aulas para mais de 1 milhão de crianças londrinas não-evacuadas, já que 2.000 escolas foram requisitadas para uso da Defesa Civil. A chuvosa capital da Inglaterra é prejudicada também pela falta de previsão do tempo, um dos primeiros serviços interrompidos após a declaração de guerra.

A Alemanha, que se preparava para a situação havia anos - "podemos ficar sem manteiga, mas não sem armas", anunciava o Ministro da Propaganda Josef Goebbels já em 1936 -, introduziu o racionamento de alimentos via cartões coloridos no fim de agosto. Carne, laticínios, açúcar, ovos, pães, cereais e frutas entraram na cinta. As únicas exceções foram concedidas aos fazendeiros, livres do racionamento, e aos mineiros, que recebem maiores suprimentos devido à natureza "extrapesada" de seu trabalho. Apesar do triunfo na Polônia, o petróleo também está sendo racionado em solo germânico - o que reflete a preocupação das autoridades do Reich à sua vulnerabilidade em caso de embargo naval às rotas de comércio.
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Sob as trevas - O ponto em comum entre quase todas as nações beligerantes do Velho Mundo são os blecautes. O procedimento de segurança para apagar ou ocultar toda a iluminação de uma área que seja alvo potencial de bombardeio aéreo tem se tornado um fardo diário para a população de centenas de cidades na Europa. Não só pelo tempo desperdiçado para, duas vezes ao dia, colocar e tirar anteparos nas janelas de cada quarto que pudesse ter suas luzes acesas, mas também pelos transtornos causados pela falta de iluminação pública nas ruas durante a noite.

Da Inglaterra, chegam informações de que os acidentes automobilísticos triplicaram desde o início do blecaute, com diversas vítimas fatais. Os pedestres também vêm se machucando ao bater em postes e outros obstáculos; também há relatos de que alguns se afogaram ao cair em canais. Uma senhorita de Wisbech foi condenada a um mês de trabalhos forçados após ofuscar policiais locais com uma lanterna e bradar: "É melhor usar a lanterna do que ficar trombando nas pessoas". Depois de incidentes como esses, as autoridades britânicas vêm permitindo aos cidadãos usar lanternas à noite - desde que seu facho esteja obscurecido por duas camadas de lenços de papel. Por enquanto, o blecaute só não gerou reclamações de ladrões e de casais de namorados.

Blindados motorizados protagonizam uma nova tática alemã de combate na Polônia - Êxito lancinante da 'Blitzkrieg' deixa Adolf Hitler estupefato - Eficácia da estratégia coloca em xeque a velha guerra de trincheiras

O 'relâmpago' nazista: tanques esmagam inimigos e abrem caminho para tropas de Hitler

inco preceitos aparentemente simples guiam a nova doutrina de combate alemã, a Blitzkrieg, ou "guerra relâmpago". A receita militar, que culminou em grande êxito na Polônia, é a seguinte:
· A mobilidade compensa a desvantagem numérica;
· Veículos blindados propiciam maior mobilidade em comparação à cavalaria;
· A blindagem de um tanque é mais valiosa na defesa do que no ataque;
· Tanques devem ser usados em agrupamentos pesados (divisões, batalhões e até mesmo exércitos) distintos de outros destacamentos em serviço;
· Dotados de velocidade, força e presença maciça, os tanques devem penetrar nas linhas inimigas para destruir suas comunicações.

Em sua estréia nos campos de batalha, a estratégia acaba de produzir um estrago sem precedentes na história militar moderna. Graças à Blitzkrieg, a investida da Wehrmacht (as Forças Armadas alemãs) na Polônia foi simplesmente avassaladora. A campanha vitimou 200.000 poloneses - 70.000 mortos e 130.000 feridos - e provocou baixas abaixo da expectativa no lado tedesco - 8.000 mortos e 27.000 feridos. Analistas internacionais previam no mínimo dois anos de combate, mas a defesa capitulou em menos de 30 dias. Surge a pergunta: de que cartola os alemães tiraram esse coelho?

Para analisar a origem da vitória, é necessário mergulhar na derrota. O revés na Grande Guerra e as restrições impostas pelo Tratado de Versalhes, em 1919, forçaram o comando militar teutônico a mudar de atitude. Mesmo antes da reabertura da velha academia de guerra tedesca, a Kriegsakademie, em 1935, o Exército, sob o comando do general Hans von Seeckt, já se tornara extremamente receptivo a novas doutrinas e princípios para reconstruir suas bases - uma delas, a idéia da supremacia das divisões blindadas.

Para britânicos e franceses, os tanques ainda eram vistos com a função da cavalaria de uma era passada, que lutava ao lado da infantaria em um determinado front. Já os nazistas, com sua nova geração de oficiais, resolveram apostar nos Panzer, ladeados pelo poder aéreo e pela guerra subversiva, extraindo o máximo das comunicações via rádio entre tropas para propiciar avanços rápidos e seguros. Bingo. A tática foi tão bem-sucedida que alguns altos oficiais alemães, hospedados num castelo em Finkenstein, tiveram tempo e tranqüilidade para caçar cervos no bosque da região logo depois da primeira semana de combates.
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Dupla função - Atribuído a Adolf Hitler, que o teria cunhado com propósitos de intimidação, o termo Blitzkrieg na verdade refere-se a um conjunto de idéias básicas que não foram esboçadas pelos germânicos. Estrategistas britânicos como o capitão Liddel Hart, o major Fuller e o major-general Martel já haviam teorizado alguns desses preceitos. Na Alemanha, a primazia do estudo da estratégia foi do general alemão Heinz Guderian, que, ao lado de outros jovens oficiais, debruçou-se sobre o assunto.

O militar formulou então a revolucionária teoria de que os tanques deveriam ser a força principal de um ataque, a quem todas as armas deveriam estar subordinadas. Hitler se mostrou receptivo à técnica: além do interesse bélico, o Führer viu nos tanques um forte apelo propagandístico, já que as unidades mecanizadas costumam impressionar bastante os civis nos desfiles militares.

Na Polônia, porém, deu-se o contrário - foi o líder alemão quem se impressionou com a potência de seus apadrinhados. Em um dos combates, um regimento de artlharia polonês em marcha foi interceptado e literalmente esmagado pelos Panzers. Hitler, que chegara ao local em seu trem Amerika, viu o que restou das armas e ficou assombrado quando foi informado que o estrago fora causado por tanques. Ele pensou que fossem bombardeiros Stukas os responsáveis pela cena.
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Céu negro - Mesmo assim, as ofensivas aéreas ainda ocupam papel importante no receituário da Blitzkrieg: cabe a elas conquistar pontos-chave do território inimigo, à frente das fileiras blindadas, para facilitar a abordagem. Na campanha polonesa, a Luttwaffe foi notavelmente eficaz na tarefa de bombardear os campos de pouso e outras instalações militares.

Mas o front aéreo ainda pode esperar por mais novidades dos tedescos: Hitler já declarou que a guerra do futuro terá "um céu negro de bombardeiros, dos quais cairá uma tempestade de pára-quedistas, cada um com sua metralhadora em punho". Por mais que a Europa ainda esteja distante desse cenário - o regimento de pára-quedistas da própria Alemanha apenas engatinha -, o certo é que a Blitzkrieg chegou para colocar uma pá de cal na velha guerra de trincheiras.

Arquiteto da imagem messiânica de Hitler,
Josef Goebbels direciona seu talento para a
política expansionista e anti-semita do Führer
- Mestre da propaganda arrebanha o apoio
da população para nova batalha na Europa
Foto: l'Ordre de la Libération
A serviço do 'Führer': orador hipnótico, Goebbels chefia a máquina de propaganda nazista

ntre 1907 e 1908, a Academia de Belas-Artes de Viena recusou, por duas vezes consecutivas, o ingresso de um candidato da pequena cidade de Braunau em suas fileiras. Além de apresentar trabalhos pouco originais, cópias ordinárias de gravuras ou de fotografias, o aprendiz pecava por não conseguir retratar em seus desenhos figuras humanas nas proporções corretas.

Três décadas depois, esse artista enjeitado resolveu redesenhar, à sua forma, as fronteiras do Velho Mundo. E enquanto o planeta teme que as pinceladas bélicas de Adolf Hitler façam da Europa uma natureza-morta, a Alemanha, em frenesi, não pára de fornecer tintas e munição para seu Führer. Como explicar esse fanatismo quase cego de uma nação historicamente ilustrada, pátria de pensadores da estirpe de Kant, Schopenhauer e Nietzsche?

Para muitos analistas internacionais, a resposta está em um homenzinho coxo, de orelhas caídas e boca solta, que atende pelo nome de Josef Goebbels. Não é exagero dizer que foi ele, o Ministro da Propaganda do Reich, quem arquitetou a imagem pública de Hitler - não apenas como líder político, mas como o Messias da nação alemã, na acepção mais sacra da palavra.

Goebbels é um verdadeiro mestre em seu ofício. Foi ele o responsável pela frente de propaganda das sucessivas campanhas eleitorais que acabaram por conduzir Hitler ao cargo de chanceler. Foi ele quem cunhou e tornou compulsória a saudação Heil Hitler - "Ave Hitler", ou "Vida longa a Hitler" - entre os integrantes do partido nazista. E é ele que, com controle total sobre rádio, televisão, imprensa, cinema e teatro, consegue conquistar o apoio maçico da população às decisões de Hitler - quaisquer que sejam elas.
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Ratos e baratas - De forma peculiar e engenhosa, Josef Goebbels conseguiu transformar o trauma da derrota na Grande Guerra num aditivo para a política expansionista nazista. "Chegou a hora de nosso país exigir seu direito histórico na Europa. O elevado destino da raça superior se aproxima. O povo tem de desejar sacrificar-se pela glória do Reich. Qualquer conforto deve ceder lugar à necessidade de armas", afirmou ele.

Alinhado com a política anti-semita de Hitler, também propala efeitos nocivos da presença dos judeus na Alemanha - em alguns casos, conclama a população a agir contra estes. Não custa lembrar que foi ele o mentor intelectual da Kristallnacht, a infame "Noite dos Cristais", em novembro do ano passado, quando a população, para retaliar o atentado cometido por um jovem judeu a um diplomata alemão, foi convocada a destruir sinagogas, lojas e casas da comunidade judaica. O resultado: 90 judeus assassinados e mais de 20.000 presos e enviados para campos de concentração. "Bravo, bravo", celebrou o ministro - que em suas propagandas refere-se aos judeus como "ratos" ou "baratas" -, ao tomar conhecimento do desfecho do levante.

Brilhante escritor, orador hipnótico, Goebbels, nascido em berço católico na cidade de Rheydt, em 1897, incluiu o Führer como um vértice extra em sua Santíssima Trindade. Sua fidelidade a Hitler é canina. Passagens dos diários de Goebbels revelam uma admiração transcendental pelo líder: "Ele é um gênio. O instrumento natural e criativo de um destino determinado por Deus. Ele é como uma criança: gentil, bondosa, piedosa. Como um gato: astuto, esperto, ágil. Como um leão: gigante e imponente".

Mas que ninguém se engane com essas comparações pueris: Goebbels é, mais do que ninguém, uma fera a serviço do Reich. Na Polônia, suas transmissões de rádio e técnicas de guerra subversiva - incluindo ameaças de uma quinta coluna pronta a atacar em território invadido - ajudaram a minar as resistências do inimigo. Se depender do Ministro da Propaganda, o Führer já pode pegar o pincel e começar a treinar a assinatura: sua grande obra-prima será concluída em breve.

Ao assinar o tratado de Munique, no ano passado, o premiê Chamberlain, da Grã-Bretanha, afirmou ter obtido 'paz para nosso tempo'. Um fracasso - Hitler rasgou o acordo. Agora, com o seu país na nova guerra, ele garante: a política de apaziguamento não era um erro. Só que Hitler foi traiçoeiro.
á dezoito meses, fiz uma oração ao adentrar o Parlamento. Rezei para que jamais fosse o responsável por pedir ao meu país que aceitasse a terrível arbitragem da guerra. Receio não ter escapado dessa responsabilidade. Mas não poderia desejar uma situação mais clara do que esta para carregar tal fardo como líder do meu país.

Nenhum homem teria sido capaz de fazer mais para manter aberto o caminho rumo a um pacto honroso e justo na disputa entre Polônia e Alemanha. Não abri mão de nenhuma maneira de deixar claro aos alemães que, se insistissem em usar a força, como vêm fazendo nos últimos tempos, estaria disposto a confrontá-los.

Fico de pé diante do tribunal da História sabendo que a responsabilidade por essa terrível catástrofe pesa nos ombros de apenas um homem: Adolf Hitler, o chanceler alemão, que não hesitou em mergulhar o mundo na desgraça para alcançar suas insensatas ambições.
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"Ele já decidira atacar. Hitler só será detido pela força. E, nesse caso, nosso país estará pronto."
Só pela força - Quando falei ao Parlamento pela última vez, não consegui deixar de reparar que, em algumas cadeiras, havia dúvida e perplexidade sobre um possível enfraquecimento, hesitação ou vacilação por parte do governo de Sua Majestade. Dentro das circunstâncias, não censuro ninguém por isso. Se estivesse no lugar dos meus colegas, sem acesso às informações que recebo, talvez pensaria o mesmo.

Não creio, entretanto, que exista algo a mais ou qualquer coisa diferente que pudesse ter feito para lograr êxito. Seria possível ter obtido um acordo pacífico e digno entre Alemanha e Polônia até o último momento. Mas Hitler não queria isso. Ele evidentemente já decidira atacar a Polônia.

Ele disse ter apresentado propostas razoáveis que foram rejeitadas pelos poloneses. Essa não é uma afirmação verdadeira. As propostas jamais foram mostradas a ninguém. Suas ações mostram de forma convincente que não é mais possível esperar que esse homem desista de usar a força para cumprir sua vontade. Ele só pode ser detido pelas armas. Nesse caso, estamos prontos.
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"É um dia triste. Foi um amargo golpe constatar que meu esforço para conquistar a paz fracassou."
Consciência limpa - Agora só resta entrar nesta luta, que ardentemente tentamos prevenir, com a determinação de vê-la acabar. Não temos rixa alguma com o povo alemão - só não gostamos do fato de que ele aceita ser governado pelos nazistas. Enquanto esse governo existir, não haverá paz na Europa. Passaremos de uma crise para outra, de um país atacado para outro. Se nossa luta devolver ao mundo as regras da boa fé e renúncia à força, os sacrifícios que exigirá terão sido justificados.

Este é um dia triste para todos, mas sobretudo para mim. Foi um golpe amargo constatar que meu esforço para conquistar a paz fracassou. Tudo por que trabalhei, tudo com o que sonhei, tudo no que acreditei durante minha vida pública reduziu-se a ruínas. Sobra apenas uma coisa a fazer: dedicar todas as minhas forças à vitória da causa pela qual me sacrifiquei tanto. Acredito que ainda viverei o bastante para ver o nazismo derrotado e a Europa livre outra vez.

Minha consciência está limpa. Fizemos tudo o que um país poderia fazer para obter a paz, mas a situação tornou-se intolerável. E agora que resolvemos mudá-la, sei que todos cumprirão seus papéis com serenidade e coragem. Que Deus defenda os justos, pois lutaremos contra o mal, a força bruta, a má fé, a injustiça, a opressão e a perseguição. E contra tudo isso, tenho certeza, os justos prevalecerão.

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