segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Brasil x Bulgária O jogo que todos queriam perder.


giba

Perdeu o Brasil, que caiu no grupo mais fácil da próxima fase e virou alvo da ira dos torcedores e jornalistas italianos. Os primeiros viraram as costas para o que viam em quadra; os últimos escolheram Bernardinho como culpado – certamente motivados pelo fato de que o treinador já vinha criticando o regulamento e atribuindo abertamente seu principal defeito (o de invariavelmente mandar para um grupo mais fácil quem passa de fase em segundo lugar) a uma estratégia para favorecer a anfitriã Itália.

É inevitável, quando se junta ética e Itália na mesma frase, pensar na Ferrari. A escuderia que escancarou para o mundo o jogo de equipe – que sempre existiu na Fórmula 1 – e levou-o às últimas consequências, exigindo de seus segundos pilotos que abrissem caminho para o primeiro. Nesse debate, os brasileiros estivemos sempre do lado mais fácil de defender. Primeiro, foi Rubens Barrichello que teve, até por força de contrato, de deixar Michael Schumacher passar (e numa dessas vezes o fez de forma a tornar pública a ordem que recebeu, a poucos metros da linha de chegada); agora é Felipe Massa que tem de abrir caminho para Fernando Alonso. Mas não vamos trilhar o caminho fácil de dizer que por isso brasileiros são éticos e italianos, antiéticos.

Aliás, ética é um dos termos que o esporte ajudou a banalizar. Qualquer discussão sobre certo e errado dentro de um campo, uma quadra ou uma pista leva à citação dessa palavra, que os gregos já debatiam e ainda hoje causa muita discórdia. Há duas grandes linhas entre os casos que provocam reclamações: a dos que burlam a regra (seja subornando um juiz, usando doping ou fazendo um gol de mão) e a dos que usam recursos considerados antiesportivos, mesmo que legais (como deixar um companheiro de equipe passar ou entregar um jogo para pegar uma chave mais fácil). Há muito mais concordância com relação à primeira; os casos mais polêmicos são aqueles em que um jogador é beneficiado por um erro de arbitragem e não se acusa, como a “mano de Diós” de Maradona ou a mãozada de Henry.

italiaNo centro de tudo, está a convicção de que no esporte se deve jogar sempre para ganhar. Mas é justamente aí que está a brecha: ganhar o quê? O jogo ou o campeonato? Uma corrida ou a temporada? O Mundial de pilotos ou o de construtores? Na busca por uma vitória, atletas e equipes usam recursos ilícitos: derrubam os adversários, usam de violência, atrasam o jogo propositalmente, fogem do combate. É para isso que existem os árbitros. Derrubou na área, é pênalti (ou é muito pênalti, para honrar o nome deste blog). É a lei do esporte. Tirar o pé do acelerador ou não escalar os titulares num jogo decisivo irrita o torcedor porque foge do braço dessa lei – que não é tão longo quanto deveria.

Brasil e Bulgária entraram em quadra com times reservas. Não há o que punir nisso. Mas há o que condenar? Não ouvi as explicações dos búlgaros, que no fim das contas se eximiram delas porque venceram a partida. Já o técnico brasileiro, Bernardinho, apresentou suas justificativas: Murilo ainda se recupera de uma lesão, Marlon não está pronto para voltar e Bruninho, seu substituto, amanheceu gripado. Qualquer treinador que poupasse esses jogadores numa partida com seu time já classificado sequer seria questionado – desde que uma derrota causada pelas alterações não prejudicasse outro time. Em Ancona, o prejudicado estava do outro lado da quadra. E o mais complicado: a derrota beneficiou o Brasil.

maradonaQuando aconteceu com os outros, fomos sempre muito severos. No futebol, a Alemanha Ocidental perdeu para a Oriental, na Copa do Mundo de 1974, para fugir do grupo de Brasil e Holanda na fase seguinte. No vôlei masculino, os Estados Unidos perderam do Brasil na primeira fase das Olimpíadas de 1984 para pegar um caminho mais fácil nas semifinais; no feminino, a China perdeu da Coreia do Sul na segunda fase do Mundial de 2002 para pegar o Brasil nas quartas-de-final. Não me lembro de ter visto essas verdades serem contestadas. Já a derrota do Brasil para os Estados Unidos nas Olimpíadas de 2004 – citada hoje pelos jornais italianos – nunca foi debatida por aqui com tanta veemência.

Falar da mão de Maradona ou Henry é sempre mais confortável do que citar, por exemplo, a de Luís Fabiano no gol contra a Costa do Marfim. Já chegamos até a exaltar a malandragem de nossos jogadores em casos graves de erros de arbitragem a favor do Brasil, como o pênalti não marcado de Nilton Santos contra o Chile, em 1962, e a cotovelada ignorada de Pelé num uruguaio, em 1970. Já comemoramos a trombada que Senna deu no carro de Prost, depois de condenar veementemente a trombada que Prost deu no carro de Senna. O esporte tem algo de cabotino na visão unilateral do torcedor. Qual seria a reação da torcida do West Ham se o gol que Paolo di Canio deixou de fazer, quando segurou a bola com as mãos ao ver o goleiro do Everton caído, valesse a perda de um título?

A avaliação do comportamento ético não pode ser apaixonada. No jogo que ninguém quis ganhar, por mais atenuantes que se listem – o regulamento que beneficia o perdedor, as lesões dos titulares, um adversário que também escalou reservas -, o Brasil gostou de perder. Teremos de conviver com isso.

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